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Publicado: Segunda, 29 de Junho de 2020, 16h57 | Última atualização em Sexta, 31 de Julho de 2020, 16h39 | Acessos: 339

Professora e pesquisadora do Campus Poços de Caldas participa de pesquisa de macroecologia inédita, que mede o risco de colapso da biodiversidade em riachos de diferentes biomas brasileiros

Após anos de pesquisa com invertebrados aquáticos em riachos de altitude no Planalto de Poços de Caldas, a professora e pesquisadora Dra. Mireile Reis dos Santos, do IFSULDEMINAS - Campus Poços de Caldas, e outros 50 pesquisadores de 26 instituições brasileiras publicaram uma pesquisa inédita, que alerta para o risco de colapso na biodiversidade aquática na região Neotropical, uma das mais ricas em biodiversidade do mundo. Os resultados da pesquisa foram publicados no internacional e prestigiado periódico científico Journal of Applied Ecology (clique aqui e confira). Coordenados pelo pesquisador Renato Bolson Dala-Corte, os autores reuniram uma grande quantidade de dados sobre peixes e invertebrados de riachos, distribuídos na maioria dos biomas brasileiros (Figura 1), e, juntamente com análises de imagens de satélite das áreas de mata ripária ou ciliar (Áreas de Preservação Permanente - APP’s), objetivaram verificar se os 30 metros que a legislação brasileira recomenda são suficientes para a manutenção da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos nessas águas doces brasileiras, a fim de orientar políticas públicas e metas de conservação.

figura 1 pesquisa riachos
Figura 1. Locais de amostragem nos diferentes Biomas Brasileiros. Fonte: Dala-Corte et al (2020).
 

Ainda foram aplicadas análises estatísticas para testar o quanto os impactos nas APP’s podem impactar proporcionalmente a fauna aquática nos diferentes biomas. Imagem feita com drone de uma das regiões pesquisadas no Planalto de Poços de Caldas, o Morro do ferro, estampa a capa do volume 57, edição 7 do renomado periódico Journal of Applied Ecology (Figura 2).

figura 2 pesquisa riachos
Figura 2. Imagem feita com drone de alguns dos riachos amostrados para a pesquisa, no Morro do Ferro – Planalto de Poços de Caldas/MG. Fonte: Mireile Reis Santos.
 

Em grande parte do mundo e no Brasil, a manutenção de reservas florestais no entorno próximo de riachos (matas ripárias = ciliares) e nascentes é uma estratégia para a purificação e preservação das águas continentais, controle de erosão e manutenção dos provimentos dos serviços ecossistêmicos. No Brasil, essas reservas são chamadas de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e são obrigatórias por lei (Código Florestal Brasileiro), sendo implementadas tanto em propriedades particulares quanto em áreas públicas. Elas são imprescindíveis para a amenização dos impactos ambientais decorrentes das atividades agropecuárias e da urbanização sobre os ecossistemas aquáticos. Contudo, algumas questões permanecem em aberto do ponto de vista científico, tais como: Quanto devemos proteger para prevenir os colapsos da biodiversidade aquática? Existe um tamanho único que pode ser usado para estabelecer regulamentos em grandes regiões ou continentes? Podemos reduzir o risco de se aproximar desses colapsos? Existem respostas distintas entre diferentes regiões, principalmente em regiões de altitude (como o Planalto de Poços de Caldas) ou em biomas diferentes (por exemplo, Mata Atlântica vs Cerrado)? Estas questões, que geravam uma lacuna no conhecimento científico e sempre intrigaram os pesquisadores, puderam, enfim, serem testadas e respondidas a partir deste trabalho de macroecologia colaborativo e proveniente de um banco de dados de anos de trabalho de vários pesquisadores brasileiros.

Os resultados da pesquisa apontaram que não é possível padronizar um tamanho único para essas reservas ripárias, sob o risco iminente de perda total da biodiversidade aquática. É preciso se considerar as particularidades locais e regionais, que, muitas vezes, variam dentro dos biomas, além da gestão integrada dessas áreas protegidas. De todo modo, o valor mínimo de 30 metros para cursos da água de pequeno porte (até 10 metros de largura) preconizado no Código Florestal Brasileiro (ou Lei de Proteção à Vegetação Nativa) não são suficientes para garantir a proteção da biota aquática, segundo o estudo. A pesquisa encontrou que, dentro de um raio de 50 metros no entorno dos riachos, uma alteração em média de 6,5% de perda de vegetação foi capaz de promover um declínio acentuado na diversidade de invertebrados aquáticos nos distintos biomas. Para a Amazônia, esse valor foi de 2,9%. Quando um tamanho ripário maior foi avaliado (500 metros = 10 vezes o anterior), uma porcentagem mais de quatro vezes maior de perda de vegetação nativa (29,6%) foi necessária para ultrapassar os limiares de perda de biodiversidade. Um padrão semelhante foi observado para peixes. Isso significa que a sensibilidade às mudanças na faixa ripária aumenta à medida que se aproxima dos riachos e que quase qualquer alteração na área de 50 metros nas margens dos riachos já é suficiente para desencadear grandes mudanças na biodiversidade aquática.

Os resultados da pesquisa permitirão que pesquisadores do Brasil inteiro se reúnam com suas governanças, no sentido de reverem algumas normas de proteção ambiental o quanto antes possível, para que seja evitado um colapso na biodiversidade brasileira (para mais informações sobre a pesquisa, clique aqui). Uma parte dos dados da pesquisa é fruto do trabalho de Doutorado da pesquisadora Mireile dos Santos e de projetos de pesquisa anteriormente realizados no Planalto de Poços de Caldas, desde o ano de 2013, e fomentados com recursos de pesquisa do IFSULDEMINAS – Campus Poços de Caldas.

“Uma publicação deste nível de relevância nos deixa muito felizes enquanto professores e pesquisadores brasileiros, pois entendemos que cumprimos o nosso papel junto à sociedade, que nos confia recursos financeiros na forma de impostos para a realização de pesquisas destinadas a melhorias e crescimento social. No entanto, ficamos muito preocupados com os resultados obtidos, pois sabemos que, se políticas públicas adequadas para conservação ambiental não forem urgentemente adotadas por nossos governantes, corremos o grave risco de colapso ambiental. E a História e a ciência nos mostram que efeitos secundários da perda da biodiversidade podem promover novos surtos e infestações, desequilíbrios, surgimento de novas doenças e outros prejuízos de ordem de saúde pública”, afirma Mireile Reis dos Santos.

A pesquisadora coordena atualmente o Laboratório de Biodiversidade no Campus Poços de Caldas, no qual continua desenvolvendo pesquisas ecológicas sobre diversidade no Planalto de Poços de Caldas, orientando bolsistas e futuros pesquisadores dos cursos superiores do campus.


Texto: Mireile Reis dos Santos e Renato Bolson Dala-Corte
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29/06/2020

 

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